Dica do Professor 07 – Narrativa e tempo nos Quadrinhos

Timing é tudo. Esta expressão prega que saber a hora certa de fazer ou dizer algo é a chave para ser bem sucedido… Esta é mais uma Dica do Professor! Timing é tudo, numa partida de futebol, num romance, no surgimento da vida na Terra e até mesmo em algo banal como uma piada bem contada. Esta é uma daquelas verdades fractais da vida que pode ser encontrada em situações que vão do microcosmo de um circo de pulgas até o macrocosmo de uma manobra militar que inverte a balança de poder em uma guerra mundial. Então, nos quadrinhos, não podia ser diferente, timing, meus amigos, é tudo nas histórias em quadrinhos. É também a chave para juntar Machado de Assis, Sérgio Leone e Mario Cau, na dica de hoje!

Página da adaptação de Dom Casmurro em quadrinhos.  Mario Cau  2010-2013 ProAC - Devir

Página da adaptação de Dom Casmurro em quadrinhos.
Mario Cau
2010-2013
ProAC – Devir

A página de HQ extraída da adaptação de Dom Casmurro acima é um momento de clímax na vida dos protagonistas Bentinho e Capitu. As juras e o beijo apaixonado dos jovens são representados por Mario Cau em passagens sutis de tempo e em precisos ângulos de câmera. Na leitura da página, notamos já no primeiro quadro, que os personagens, de rostos quase colados, demoram mais três quadros para se beijar. Este tempo é gasto em uma troca de olhares (quadros 2 e 3) e no derradeiro momento em que não conseguem mais evitar o beijo (quadro 4). Notamos também, que a chamada calha, a moldura dos quadros, sofre transformações durante a página: no quadro 4 ela se contrai, no último suspiro antes da emoção do quadro 5, onde ela se expande e nem mesmo existe.

Arte 2

Estas mudanças no tamanho do quadro e na calha são ferramentas muito importantes da narrativa visual. Se os quadros em sequência nesta página representam a passagem do tempo, as calhas são os intervalos, ou melhor, as pausas. Controlar a velocidade do leitor ao percorrer a página é essencial para criar o efeito dramático ou a ação desejada. Observe o próximo diagrama, que cruza as pausas com o efeito dramático na velocidade de leitura da página:

casmurro_completo.cdr
A narrativa visual é usada não só nos quadrinhos (e suas variações), mas também em vídeo e no cinema. Bons cineastas constroem grandes dramas apenas com imagens, ângulos de câmera, enquadramentos e pausas.

Sergio Leone, um dos grandes cineastas do século XX, em sua obra-prima “Era uma vez no Oeste“, traz um exemplo perfeito para a dica de hoje. A cena usa pouca trilha sonora e tem apenas três falas (três frases curtas). Tudo é narrado com maestria em imagens:

A cena constrói uma grande tensão até o primeiro tiro ser dado (ritmo lento). Quando se ouve o disparo (clímax #1), o ponto de vista do pai, distante da filha, mostra a personagem Maureen desfalecendo sobre a terra batida, o branco de seu vestido é o único branco que se destaca na cena. E que se extingue com sua vida. O pai corre até o corpo da filha e a câmera corre junto (ritmo se acelera), o pai é baleado várias vezes e também cai, o mesmo acontece com o filho mais velho. O filho mais jovem corre para fora de casa, para ver o que aconteceu. O ritmo desacelera novamente, o menino olha ao redor e aos poucos os atiradores saem dos arbustos (anticlímax). Uma nova tensão surge enquanto o menino e o líder dos atiradores se encaram. A cena, supostamente terminada, aumenta a tensão quando um dos atiradores pergunta ao líder: “O que faremos com este, Frank?”. O líder, Frank, endurece a expressão de seu rosto, encara seu capanga e responde: “Agora que você me chamou pelo nome…”. Frank saca sua arma, sorri maliciosamente e atira no garoto, desencadeando um segundo clímax, ainda mais avassalador que o primeiro.

Neste caso, a narrativa elaborada que tem não apenas um, mas dois pontos de clímax aproveita o melhor das pausas entre o ritmo mais lento e o acelerado. Timing, de fato, é tudo. Assista novamente a cena, leia novamente a página da HQ, pense em como você narraria com imagens uma ação corriqueira do seu dia, como chegar ao trabalho ou à escola… Este é um bom exercício. E, como sempre, acompanhem nosso blog e sigam-nos no Facebook para mais dicas.

Abraço a todos, e até a próxima!
Vitor Gorino

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