Dica do Professor 06 – Diagramação e Narrativa

 Feliz 2014, amigos do Dica do Professor! Abrimos o ano com uma dica do artista convidado Eduardo Ferigato! Ex-professor da Pandora Escola de Artes, Ferigato ilustrou em 2010 e 2011 a HQ remake do célebre personagem Fantasma, intitulada The Last Phantom da Dynamite Comicse em 2013 publicou a HQ QUAD, junto de Aluísio C. Santos, Diego Sanches e Eduardo Schaal.

A dica de hoje discute uma arte publicada, o que é, no fundo, o objetivo de se fazer ilustração. A publicação é a revista Mundo Estranho edição 141. A arte está abaixo, assim como foi publicada. Esta revista é conhecida por usar muitas ilustrações em suas matérias, é, portanto, um bom lugar para conhecer o trabalho de ilustradores de ponta em atividade no Brasil.

“Sem Título” Ilustração para a revista Mundo Estranho  por Eduardo Ferigato  2013 Os direitos da imagem são de posse da Editora Abril

“Sem Título”
Ilustração para a revista Mundo Estranho
por Eduardo Ferigato
2013
Os direitos da imagem são de posse da Editora Abril

Pela primeira vez, aqui na Dica, ilustração e texto estão juntos, dividindo o espaço de composição, o que é comum também nas histórias em quadrinhos, cartazes, capas de revistas etc. O arranjo do texto e da imagem (e de qualquer outro elemento incluso) chama-se diagramação. Neste caso, o artista e o editor da matéria/revista trabalham juntos para harmonizar a ilustração e o texto, priorizando a boa legibilidade e compreensão de ambos. Vejamos como isso acontece, começando com a narrativa visual proposta pelo artista, contando um pouco da história do assassino que é o destaque da matéria publicada: Wayne Williams:

Os direitos da imagem são de posse da Editora Abril

Os direitos da imagem são de posse da Editora Abril

Na imagem da esquerda notamos melhor todos os elementos importantes na história contada na matéria. A lua (os crimes aconteciam durante a noite), a ponte (de onde as vítimas eram arremessadas), o carro, os policiais, a vítima, o cão (que ajudou a solucionar o caso), o rio (onde as vítimas foram encontradas) e o assassino, com uma vítima em mãos. No diagrama à direita, notamos que os elementos em destaque (vermelho) se distribuem e guiam o olhar do leitor na diagonal tradicional de leitura de textos, de cima para baixo, da esquerda para a direita. Ao seguirmos esta diagonal, a imagem nos conta sua história. Os elementos importantes da trama foram organizados em três faixas horizontais: a lua e o céu, a ponte e seus personagens, o rio e o assassino. Estas faixas já foram posicionadas pensando em organizar o espaço para o texto, que foi colocado entre elas e complementa a narrativa da matéria da revista, como mostramos no próximo diagrama:

Os direitos da imagem são de posse da Editora Abril.

Os direitos da imagem são de posse da Editora Abril.

As caixas de texto, destacadas em amarelo, se intercalam com as faixas com os elementos importantes da ilustração (áreas vermelhas no diagrama anterior). Assim, as diagonais de leitura destas caixas (setas vermelhas) sempre dirigem a visão do leitor à próxima caixa e também à uma parte da ilustração, sempre direcionando o olhar para o clímax da matéria, que é a imagem do assassino com a vítima nas mãos, que o leitor encontra depois de ler toda a matéria. Por fim, nas cores da ilustração, a escolha do preto, branco, cinza e vermelho, ajudam muito na leitura da imagem com o texto. A arte em tons de cinza narra a história mas não atrapalha a leitura do texto, e o uso do vermelho no assassino e na vítima serve como um destaque final e um ponto de equilíbrio em relação ao cabeçalho amarelo, no topo da página da matéria.

A diagramação de peças gráficas como esta é um trabalho minucioso, que deve levar em consideração muitos fatores. Numa revista como a Mundo Estranho, de comunicação dinâmica e voltada ao público jovem, os valores mais prezados na diagramação são um visual muito atrativo, leitura curta e rápida e boa legibilidade. Por isso a presença de muitas ilustrações e as caixas de texto pequenas e bem divididas. Mas, dependendo do perfil do material, seu conteúdo e objetivo, a disposição de imagens e texto pode ser totalmente diferente disto, e mesmo assim não estará errada, pois atende ao apelo de um determinado tipo de material e público. Veja abaixo os cartazes de bandas e filmes que apelam ao período/estilo psicodélico:

“Psych-Out”   Cartaz de filme , 1968. “Grateful Dead”   Cartaz de concerto da banda, 1967.

“Psych-Out” Cartaz de filme , 1968 (esquerda)            “Grateful Dead” Cartaz de concerto da banda, 1967 (direita)

Valores como narrativa visual objetiva, separação clara de figura e fundo e leitura rápida estão em segundo plano nestes dois casos. Tomam seu lugar valores como harmonia de formas entre imagem e texto, sobreposição de cores e formas em profusão, distorção e estilização etc. Mesmo sendo diferentes do caso da ilustração da semana, ambas são peças gráficas eficientes de comunicação visual, pois usam o repertório visual do material de origem e da época e se destinam ao público que se interessa neste tipo de cultura, ou no caso contracultura.

Mais uma vez o nosso foco na Dica é narrativa visual, é como contar uma história com imagens. Hoje, agregando imagem e texto, nos aventuramos um pouco pelo ofício do design, da publicidade e da comunicação pessoal, áreas de atuação que se especializam em adequar um determinado meio de comunicação (cartaz, revista etc) ao seu público, selecionando o melhor estilo de diagramação, fotografia, ilustração, tipografia e cores para este. Esteja atento para isto até mesmo em simples propagandas de produtos em revistas ou sites. Há muito a se aprender com a publicidade e o mercado editorial sobre como construir um discurso com imagens e fazer este discurso chegar até o público que se deseja!

Como sempre, não se esqueçam de acompanhar nosso blog e sigam-nos no Facebook para mais dicas. Abraço a todos, e até a próxima!

Vitor Gorino.

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